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A ABEG inicia uma série de matérias explicativas sobre soluções e conceitos da engenharia geotécnica. O objetivo é apresentar, em linguagem acessível, técnicas que fazem parte do dia a dia das obras e mostrar o papel do projeto em cada uma delas.

A primeira matéria trata da estaca hélice contínua.


Perfuratriz com trado helicoidal contínuo, equipamento usado na execução de estacas hélice contínua. Crédito: iStock

 

A estaca hélice contínua é uma estaca de concreto moldada no próprio terreno, escavada por um trado em forma de hélice e concretada à medida que o trado é retirado. É hoje uma das soluções de fundação profunda mais usadas em edifícios nas cidades brasileiras.

O motivo é uma combinação rara: executa muitos metros por dia, gera pouca vibração nas construções vizinhas e funciona abaixo do lençol freático. Chegou ao Brasil no fim dos anos 1980 e se difundiu nas décadas seguintes.

Apesar do nome parecido, ela não deve ser confundida com a estaca helicoidal, que é metálica e fica no solo depois de instalada. Na hélice contínua, o aço da hélice faz parte apenas do equipamento de perfuração.

Como funciona

A execução acontece em três etapas, sem interrupção entre elas.

  1. Perfuração. Uma máquina gira um trado helicoidal contínuo, com um tubo central oco, e o introduz no solo até a profundidade definida em projeto. O solo fica preso nas pás da hélice, que sustentam as paredes do furo.
  2. Concretagem. O concreto é bombeado pelo tubo central e sai pela ponta do trado. Ao mesmo tempo, o trado é retirado do terreno, levando o solo para fora. A pressão do concreto ocupa o espaço deixado pelo trado e mantém o furo estável.
  3. Armadura. Com o concreto ainda fresco, a armadura de aço é introduzida na estaca.

Como o furo nunca fica aberto e vazio, a estaca dispensa revestimento metálico e lama bentonítica, recursos usados em outros tipos de estaca escavada para conter as paredes.

Por que "monitorada"

O nome completo da técnica é estaca hélice contínua monitorada. Durante a execução, sensores ligados a um computador na máquina registram dados como a profundidade, o torque, a velocidade de rotação e de avanço do trado, a pressão do concreto e o volume bombeado.

Cada estaca gera um relatório próprio. Esses registros não substituem a avaliação técnica: são informações que os engenheiros interpretam para acompanhar a execução e identificar eventuais anomalias.

Vantagens

  • Baixa vibração e pouco ruído. Como não depende de golpes, a hélice contínua não gera as vibrações típicas das estacas cravadas, o que reduz o risco de danos a prédios vizinhos e o incômodo à população.
  • Alta produtividade. Uma única máquina executa várias estacas por dia, o que encurta o cronograma da fundação.
  • Funciona abaixo do lençol freático. A pressão do concreto impede que a água e o solo invadam o furo.
  • Execução registrada. O monitoramento eletrônico deixa um histórico de cada estaca, útil para a fiscalização e para eventuais análises futuras.

Limitações

  • Rocha e matacões. A presença de rocha ou de blocos de rocha (matacões) no subsolo pode impedir que o trado chegue à profundidade prevista.
  • Exige concreto usinado. O concreto é bombeado pelo tubo central do trado, e o fornecimento precisa ser bem programado.
  • Máquina de grande porte. O equipamento precisa de terreno plano, firme e com espaço para se movimentar, o que pesa em terrenos pequenos ou de acesso difícil.
  • Custo de mobilização. Levar e montar o equipamento na obra tem custo relevante, que costuma se justificar a partir de um número mínimo de estacas.
  • Armadura colocada depois. Como o aço entra com o concreto já lançado, armaduras longas exigem cuidados adicionais na execução.

O papel do projetista geotécnico

A escolha da hélice contínua começa antes da máquina chegar à obra. É o projetista geotécnico quem interpreta as sondagens, verifica se o subsolo comporta a técnica e define diâmetro, comprimento e capacidade de carga de cada estaca, seguindo a norma de fundações, a ABNT NBR 6122.

Durante a obra, o projetista analisa os relatórios de monitoramento e os ensaios de carga para confirmar que as estacas se comportam como previsto. Quando algo foge do esperado, cabe a ele ajustar a solução.

Um exemplo recente: um dos projetos vencedores do Prêmio ABEG Sigmundo Golombek 2025, da EMBRE Engenharia, em Brasília, usou 550 estacas hélice contínua. As profundidades foram definidas com modelos 3D do subsolo e controladas durante a execução pela energia de perfuração de cada estaca. Leia a matéria.

A ABEG apoia o 4º Encontro de Engenharia Geotécnica, ciclo de palestras "Fundações e Contenções: Projetos, Monitoramento e Intervenções em Casos de Obra", evento gratuito promovido pela Geotecnia Brasil. O encontro acontece no dia 11 de novembro, das 16h às 19h30, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Campus Campinas (SP).

O encontro reúne profissionais de reconhecida experiência para discutir soluções, desafios e aprendizados em fundações e contenções a partir de casos reais de obra, promovendo uma tarde de atualização técnica e troca de experiências entre profissionais, pesquisadores, professores, estudantes e empresas do setor.

Entre os destaques da programação estão as participações de Carlos Medeiros, da EMBRE Engenharia, e Frederico Falconi, da ZF & Engenheiros Associados), ambos agraciados nas edições mais recentes do Prêmio ABEG. Medeiros apresentará o desempenho geotécnico do Complexo Hospitalar CNC, abordando projeto, instrumentação e monitoramento da obra, enquanto Falconi trará as soluções de contenções, fundações especiais e interação com o Metrô empregadas nas obras do Complexo do Pacaembu.

 Frederico Falconi (esquerda) e Carlos Medeiros (direita) receberam o Prêmio ABEG Sigmundo Golombek 2025

A programação conta ainda com palestras de Anna Laura Nunes sobre queda de blocos rochosos, e George Telles, que abordará desafios em solo grampeado. Além da 2ª edição do Prêmio Waldemar Hachich, que reconhece profissionais que contribuem para o fortalecimento da engenharia geotécnica brasileira.

 Mais informações e inscrições em: https://eventiza.com.br/evento/fundacoes-e-contencoes-projetos-monitoramento-e-intervencoes-em-casos-de-obra

A ZF & Engenheiros Associados é uma das vencedoras do Prêmio ABEG Sigmundo Golombek 2025 com o projeto de reforço de fundações para o retrofit do Hotel Marina Palace, na Avenida Delfim Moreira, no Leblon, Rio de Janeiro. Assista à apresentação de Frederico Falconi:

 

Fundada em 1982, a ZF atua em projetos de fundações e contenções e conta com 22 engenheiros, entre mestres, doutores e especialistas. O engenheiro Frederico Falconi, diretor da empresa, descreve a trajetória da ZF como marcada pela busca de soluções adaptadas a cada obra. "Cada obra representa um desafio", diz Falconi. "Temos que pensar em soluções diferentes para buscar segurança, desempenho e custo vantajoso para o cliente."

O desafio do Marina Palace

O Hotel Marina Palace foi construído na década de 1970 e ficou sem uso por um longo período antes de um processo de retrofit ser iniciado. O edifício, com 26 pavimentos e dois subsolos, apresentava deterioração estrutural significativa, e as intervenções previstas no retrofit exigiam um reforço de fundações que não comprometesse o edifício nem as construções vizinhas.

A solução desenvolvida pela ZF combinava tratamento do solo com um novo radier de fundação executado a partir do interior do prédio, sem necessidade de rebaixamento do lençol freático. Chegar a essa resposta, porém, exigiu contornar um problema geométrico considerável: cada intervenção precisava desviar da estrutura existente nos subsolos. "Foi um mês só fazendo zigue-zague para poder chegar", descreveu Falconi.

O projeto contou com a colaboração do engenheiro Augusto Pedreira de Freitas no projeto de recuperação estrutural e do engenheiro Ibsen Puleo como verificador independente, além do engenheiro Jefferson Azeredo e da empresa Carmona Engenharia.

Para Falconi, um dos desafios do projeto foi apresentar uma solução incomum a interlocutores que não eram especialistas em fundações. A tarefa foi facilitada pelo envolvimento prévio dos calculistas estruturais, que já haviam estudado o problema sem encontrar resposta, e reconheceram na proposta da ZF uma saída viável.

O Hotel Marina Palace ainda não está em operação. A fundação foi concluída em 2024 e o empreendimento foi adquirido por uma nova empresa. Falconi projeta um desfecho à altura do trabalho realizado: "Tenho certeza que esse será o melhor hotel do Rio".